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Ellen Sara Gonzaga

Salão Dentro Do Peito

Ele entra no salão — não é muito grande, mas há um charme sedutor no ar.

Nota nas paredes uma quantidade considerável de quadros das mais variadas artes modernas, algumas plantas implorando silenciosamente para serem regadas, um tapete no canto, um espelho e um sofá cinza — um convite para o repouso. Haveria mais pessoas ao seu lado se cedesse a esse convite, mesmo assim não resistiu, e na verdade até gostaria de se entrosar naquele dia.

Acomoda-se. Quase se sente em casa — e só então percebe a banda que toca. Nela, uma menina frenética arranca sons descompassadamente, mas há ritmo. A forma barulhenta com que ela faz aqueles ruídos o atinge de forma imediata; ele sente pulsar cada batida na mão, olha para baixo e vê sua respiração segui-la; o peito ecoa cada nota, o sangue dança no mesmo compasso e a partir dali nada mais existe naquele espaço.

Sente espanto que a cadência frenética dela o tomava por inteiro. No instante em que a reconhece, se questiona: como pude ter notado somente agora?

Pensa que, se se levantar e dançar mais por perto, talvez chame atenção, e como que comandado, o faz. Movia-se com dificuldade à música, que de constante possuía somente o caótico, até escorregar no tapete.

Sentia vontade de arrancá-la lá de cima, queria entendê-la. Em um dos intervalos finalmente aconteceu, e somente no silêncio que eles puderam se aproximar. Ele que chegou, claro — não podia mais sentir aquela vontade e deixar de atender. Era perceptível pela troca de suspiros que ela também tentava, mas sempre se voltava ao barulho de seu dever e assim se perdia dele antes mesmo de o alcançar.

“Estamos sentindo juntos muita coisa hoje”.


Sempre fazia isso! Com a força delicada de um solavanco já mostrava de início cada intenção de seu movimento. Desde pequeno foi ensinado a pulsar através do sentimento.

Ela falava em maior frenesi ainda do que sua música. Passaram horas conversando sobre a vida enquanto ele bebia um vinho e ela fumava um cigarro fedido; a vida toda ele se sentiu deslocado, e nunca achou um lugar que pudesse realmente se aconchegar devagarzinho, calmo e poder trabalhar com o amor que só parecia caber nele, ao passo que ela ansiosa, sempre pensando na banda perfeita, ou mesmo em alguém que se embalasse na mesma frequência, fez uma brincadeira de que ele tinha chegado bem perto disso naquela noite – mas ele sentiu a verdade que saía de sua boca.

Ambos abertos, sentiam naquele diálogo a tranquilidade de saber que estava sendo olhado. E notado.

Mas o silêncio volta — esse dura tempo demais.

E ele a vê subindo, pelo reflexo do espelho, pra dentro do salão. O vinho ainda arde na boca, o ar guarda o cheiro da fumaça daquele encontro. E o corpo que agora pulsa em um ritmo compassado por si mesmo  sabe que não entenderá como aquele barulho desengonçado podia tanto assim afetá-lo.

Ela não descerá mais, ou talvez nunca tenha descido.

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